Após corrida por módulos, mercado solar muda estratégia de importação e mira baterias
Estoques elevados e custos logísticos alteram a dinâmica das importações, enquanto baterias ganham espaço no setor

Do painel à bateria: a nova logística por trás da expansão da energia solar no Brasil
O mercado brasileiro de energia solar entrou em uma nova fase. Depois de anos marcados pelo forte crescimento das importações de módulos fotovoltaicos, empresas do setor começam a lidar com um cenário em que estoque, frete, tributação e planejamento logístico pesam tanto quanto a própria demanda por equipamentos.
E há uma mudança importante no horizonte: as baterias começam a ganhar espaço nessa cadeia.
Os números das operações do Grupo Allog ajudam a dimensionar a trajetória recente. As importações de módulos solares movimentadas pela empresa passaram de 13.659 TEUs em 2023 para 14.900 TEUs em 2024 e chegaram a 15.720 TEUs em 2025.
O crescimento, porém, não aconteceu de maneira linear.
Depois da corrida, veio o ajuste
Em 2024, empresas anteciparam compras para aproveitar condições de incentivo fiscal. O movimento ajudou a impulsionar as importações, mas também contribuiu para a formação de estoques elevados.
Na sequência, o mercado precisou absorver esse volume.
A consequência foi uma mudança na estratégia de aquisição. Parte dos pequenos e médios compradores passou a reduzir as importações diretas da China e a recorrer a grandes distribuidores nacionais. Na prática, isso contribuiu para concentrar uma parcela maior das operações de comércio exterior em empresas de maior porte.
Para a especialista vertical do segmento solar do Grupo Allog, Adriane Pessôa, o setor passou por uma forte aceleração e entrou posteriormente em um período de acomodação.
Essa mudança mostra que o desafio atual não está necessariamente em importar mais, mas em importar melhor.
Quando o frete passa a valer mais
A queda no preço dos módulos também mudou a equação logística.
Com equipamentos mais baratos, o custo de transporte representa uma parcela proporcionalmente maior da operação. Uma alteração no frete marítimo pode, portanto, fazer diferença significativa na rentabilidade de uma importação.
É um cenário que exige mais flexibilidade das empresas.
Em momentos de frete elevado, por exemplo, embarques podem ser adiados ou reorganizados de acordo com a urgência de cada carga. Além disso, disponibilidade de navios, mudanças de rotas e fatores geopolíticos podem alterar rapidamente as condições do transporte internacional.
O planejamento, portanto, deixa de ser exclusivamente anual.
Fornecedor, estoque, prazo de entrega, preço do equipamento e custo do transporte passam a fazer parte de uma mesma equação.
A próxima carga pode não ser um painel
Enquanto o mercado ajusta a dinâmica das importações de módulos e inversores, uma nova categoria começa a ganhar relevância: os sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos como BESS.
A expansão dessas soluções pode representar uma mudança significativa para toda a cadeia.
Isso porque uma bateria de lítio não apresenta as mesmas características logísticas de um módulo fotovoltaico. Seu transporte envolve procedimentos específicos relacionados ao manuseio e à classificação da carga.
Em projetos de maior porte, a complexidade aumenta ainda mais. Sistemas BESS destinados a aplicações comerciais, industriais e de grande escala podem ser transportados em contêineres e atingir dezenas de toneladas.
Nesse cenário, logística e engenharia passam a estar ainda mais conectadas.
Não basta definir o equipamento. É necessário considerar como ele será transportado, por qual terminal entrará no país, quais procedimentos serão necessários e como chegará ao local onde será instalado.
Solar, baterias e carros elétricos começam a se encontrar
Outra transformação acontece na fronteira entre energia solar e mobilidade elétrica.
A expansão dos veículos elétricos e dos eletropostos cria novas possibilidades de integração entre geração fotovoltaica, armazenamento e carregamento de veículos.
Um empreendimento pode, por exemplo, combinar painéis solares, baterias e infraestrutura de recarga em uma mesma solução.
Para empresas que já atuam no mercado fotovoltaico, essa convergência pode abrir espaço para novos negócios — e também para uma nova demanda por equipamentos importados.
A cadeia solar, portanto, começa a deixar de ser definida apenas pelos módulos instalados nos telhados e nas grandes usinas.
China ainda domina a origem dos equipamentos
Apesar das iniciativas de nacionalização da cadeia, a China continua sendo uma peça central no abastecimento do mercado brasileiro, especialmente quando o assunto são módulos fotovoltaicos.
A produção nacional ainda não atende integralmente à demanda brasileira e, mesmo em equipamentos montados localmente, componentes importantes podem continuar dependendo de fornecedores estrangeiros.
Há, contudo, movimentos diferentes em determinados segmentos.
Estruturas utilizadas na instalação dos módulos, por exemplo, vêm ampliando a participação de fabricantes brasileiros, reduzindo a necessidade de importação desses componentes.
Na logística internacional, Santos permanece como uma das principais portas de entrada para os equipamentos, acompanhado por Paranaguá e Itapoá. No Nordeste, portos como Suape e Salvador também participam desse fluxo.
O setor solar está mudando — e a logística também
A principal transformação do mercado brasileiro talvez não esteja apenas no crescimento ou na redução das importações.
Ela está na diversificação daquilo que precisa ser movimentado.
O setor que durante anos teve os módulos fotovoltaicos como protagonistas começa a incorporar baterias, sistemas de armazenamento, equipamentos para mobilidade elétrica e soluções cada vez mais integradas.
Isso muda as necessidades de toda a cadeia.
Importadores precisam administrar estoques com mais precisão. Operadores logísticos precisam lidar com diferentes tipos de carga. Integradores precisam dominar novas tecnologias. E as empresas precisam acompanhar um mercado em que preço, disponibilidade e transporte estão cada vez mais interdependentes.
A próxima etapa da energia solar brasileira, portanto, pode ser menos sobre simplesmente trazer mais equipamentos para o país — e mais sobre construir uma cadeia capaz de movimentar diferentes tecnologias, no momento certo e pelo menor custo possível.
Como resume Adriane Pessôa, o desafio é montar esse quebra-cabeça logístico de acordo com a necessidade de cada cliente.
E, nesse novo cenário, o quebra-cabeça acaba de ganhar algumas peças importantes: baterias, armazenamento e eletrificação.
Fonte: informações baseadas em dados e declarações divulgados pelo Canal Solar e pelo Grupo Allog.




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