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Petrobras atrasa reajustes nos combustíveis, mas não deixa de repassar alta, diz estudo

A Petrobras tem atrasado os reajustes no preço dos combustíveis em cerca de um mês, mas não deixa de repassar no Brasil os aumentos do mercado internacional, segundo estudo da Leggio Consultoria com dados até janeiro de 2024.

Há quase um ano, em 16 de maio, a Petrobras anunciava a mudança na sua política de precificação dos combustíveis, que passaria a ter o preço internacional como um dos componentes, mas não o único. A medida foi anunciada como um “abrasileiramento” dos preços.

A ideia era evitar que as oscilações no preço do petróleo no cenário externo levassem a mudanças bruscas no preço do combustível internamente.

Críticos desse “abrasileiramento”, no entanto, alegam que a Petrobras, como uma empresa que compete no mercado, tem que praticar preços internacionais, sob o risco de tomar prejuízos e perder competitividade.

O estudo da Leggio Consultoria, obtido com exclusividade pelo g1, mostra como tem funcionado o “abrasileiramento”: a estatal tem mantido o valor dos combustíveis pouco abaixo do preço de importação – cerca de 5% menor. E segura por um mês o momento de fazer os repasses.

Ou seja, os reajustes são aplicados, mas sempre com um mês de atraso e sempre mantendo o preço cerca de 5% menor que no mercado externo.

Outra conclusão da consultoria é que essa prática já vinha acontecendo em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro. Naquele período, a política de preços da Petrobras, pelo menos oficialmente, ainda não tinha passado por modificações.

Assim, segundo a consultoria, a alteração em 2023 foi um anúncio político de algo que já vinha sendo praticado.

A consultoria comparou os preços médios praticados pela Petrobras para o diesel e a gasolina com os valores de paridade de importação publicados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), no período de 2020 a janeiro de 2024.

Pelo levantamento, os repasses de alta demoram cerca de um mês para ocorrer. Porém, quando o movimento é de queda no mercado internacional, a estatal repassa a redução com mais rapidez. Segundo D’Elia, ao segurar o aumento e repassar rapidamente a redução, a Petrobras não toma prejuízo.

Avaliações contra e a favor

Segundo Marcus D’Elia, sócio da consultoria que fez o estudo, a estratégia pode ser eficiente do ponto de vista dos objetivos do governo e da estatal. “Não dá para dizer que essa política está prejudicando a companhia. Eu interpreto como um posicionamento estratégico de mercado”, declarou D’Elia.

A política da estatal ajuda a evitar o repasse de instabilidades na cotação dos combustíveis, como picos muito altos de preço no mercado internacional. É a margem de lucro desses picos que a Petrobras deixa de faturar.

Mas as constatações da consultoria são contestados pelo presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araujo. Ele diz não ver repasse das altas. Segundo o executivo, a Petrobras tem segurado o reajuste da gasolina, por exemplo, desde outubro de 2023.

A Abicom calcula a paridade de importação diária – diferentemente da ANP, que é mensal. Por isso, a associação reflete instabilidades no mercado internacional.

Na terça-feira, 30, a defasagem média entre o preço praticado pela Petrobras e o do mercado internacional era de 5% para o diesel e 14% para a gasolina. “O último reajuste na gasolina que a Petrobras deu foi no dia 21 de outubro de 2023. Não existe essa avaliação e alinhamento mensal, estamos falando que tem aí quase sete meses sem reajuste”, declarou.

Política de preços igual à de 2022

O estudo da Leggio detalha por que a política de preços da Petrobras é a mesma desde 2022. Ou seja, a estatal já havia deixado de estar completamente alinhada ao preço internacional no último ano do governo anterior.

“Ela evita repassar a volatilidade e é por isso que os picos de preço não aparecem, ou seja, você nunca tem um pico tão alto quanto o que foi o da paridade internacional. Isso é algo que realmente a Petrobras está fazendo e que não fazia antes, em 2020 e 2021, mas já fazia em 2022 e continuou fazendo em 2023”, disse D’Elia.

O presidente da Abicom também observa que a paridade de importação havia deixado de ser seguida já no governo anterior. “Tivemos, desde 2019, a Petrobras consistentemente praticando preços bem abaixo da paridade e com períodos longos também”, afirmou.

Paridade de importação

Desde o governo de Michel Temer, a Petrobras adotava a chamada “política de paridade de importação”. Isso significa que o preço dos combustíveis vendidos para as distribuidoras no Brasil era determinado pelo custo de importar e trazer esses produtos até os portos nacionais.

A estratégia considerava o valor de cotação do dólar e do barril de petróleo, além dos gastos com transporte, taxas e seguros. Isso fazia com que a estatal repassasse instabilidades ao mercado interno.

Mas a política de preços mudou em maio de 2023, para atender a um anseio do governo, que quer derrubar os preços dos combustíveis.

Na ocasião, a Petrobras explicou que os seus preços para as distribuidoras estariam no intervalo entre: o maior valor que um comprador pode pagar antes de querer procurar outro fornecedor e o menor valor que a Petrobras pode praticar na venda mantendo o lucro.


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