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´O investimento em ESG não sairá de moda´


O papel do setor financeiro é fundamental na transição energética, principalmente para retirar o capital do setor de combustíveis fósseis e focá-lo na sustentabilidade. "Os investimentos em combustíveis fósseis já são os de pior rendimento da economia nesta última década", disse o ambientalista e ex-vice-presidente dos EUA Al Gore durante o talk show do Cidadão Global 2021, promovido pelo Valor e pelo banco Santander. Sergio Rial, presidente do Santander, ressaltou o papel individual. "Precisamos levar esta questão para nossa vida cotidiana. Isso começa com o que consumimos, as escolhas que fazemos." Na visão de José Roberto Marinho, vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho, deve-se adotar, na comunicação da mudança climática, a mesma linha adotada na pandemia da covid19 "para convencer os céticos. Não é uma questão de crença. São fatos, é ciência", disse. "Nosso desafio é comunicar com simplicidade e inovação, buscando ser o mais inclusivo possível. E a educação é essencial para enfrentar a crise que está chegando. Devemos treinar os jovens que herdarão este enorme desafio." Eles conversaram com Luis Alberto Moreno, diplomata colombiano e ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que conduziu a entrevista. Leia os principais trechos a seguir: Luis Alberto Moreno: O sr. alertou para a importância da floresta amazônica, parte do patrimônio mundial. Como a comunidade internacional pode ajudar na iniciativa gigantesca de prevenir o risco das queimadas e ajudar na preservação? Qual seria seu conselho? Como disse, este é problema de todos Al Gore: Digo há décadas que o que acontece na Amazônia brasileira depende do Brasil. Nenhum outro país dirá ao Brasil ou ao governo brasileiro o que fazer, nem deveria. Mas espero que todos aceitem suas responsabilidades na iniciativa global de resolver a crise climática. O desmatamento tem impacto devastador em comunidades indígenas e na biodiversidade, pois 80% da biodiversidade fica em territórios ocupados por comunidades indígenas. A Amazônia também tem implicações críticas para o ciclo hídrico global. Altos níveis de desmatamento já causam escassez de chuvas no sul. Meu primeiro conselho, já que você pediu, é que os governantes, brasileiros ou de todo mundo, considerem as comunidades em territórios indígenas ao desenvolver as políticas climáticas e de biodiversidade. Estas comunidades protegem a biodiversidade mundial há várias gerações. Garantir que tenham assento na mesa é importante para proteger a Amazônia e outros ecossistemas. Governos e o setor privado precisam aumentar o volume de fundos dedicados às soluções climáticas naturais. Esses investimentos protegem não só os recursos naturais, mas ajudam as economias que dependem deles para diversos serviços ecossistêmicos, como qualidade do ar e da água. Um relatório recente descobriu que proteger 30% da área hídrica e marítima global aumentaria o retorno econômico anual em uma média de US$ 250 bilhões e geraria, em média, US$ 350 bilhões em serviços ecossistêmicos por ano. Obviamente precisamos precificar o carbono, o que vem sendo politicamente difícil no meu país e em quase todos os países. Estabelecer mercados de carbono estáveis e transparentes resulta em boa redução de emissões e pode gerar incentivos para preservar a natureza. Há uma grande falha de compreensão do papel imprescindível da natureza na regulação do nosso clima. Este é o caso da Amazônia. Devemos trabalhar para garantir que todos compreendam o papel dos sistemas naturais na melhoria da nossa resiliência para lidar com eventos climáticos extremos, na manutenção da agricultura, da pesca e muito mais. Moreno: Um aspecto pouco conhecido seu, vice-presidente Al Gore, é que é um investidor de sucesso. Começou focando em empresas com políticas ambientais, sociais e de governança. Fez isso muito antes de virar moda. Como acha que a revolução acontecerá no mercado financeiro? Isso faz parte da arrecadação de fundos que ajudariam a criar um mundo muito melhor. Gore: Sou otimista com relação às oportunidades de investimento geradas pela revolução sustentável que descrevi. O potencial incrível que ela tem é a razão pela qual o investimento em ESG [sigla em inglês para ações sociais, de governança e ambiente] é uma melhor prática. Acredito que isto não sairá de moda. A economia de combustíveis fósseis não basta para justificar investimento na destruição do planeta. Estamos diante do risco de uma bolha global de carbono, como a das [hipotecas] subprime, sendo que US$ 22 trilhões de ativos de carbono de segunda linha já estão sendo lançados nos balanços de multinacionais e fundos soberanos, mas jamais serão queimados. Precisamos ter cuidado com "greenwashing" de empresas e investidores que têm metas aparentemente promissoras, mas não um plano concreto para cumprir. Os investidores precisam ter uma posição ativa para se opor aos conselhos que não levam a crise climática a sério. Não estou falando em termos morais somente. A crise climática já tem impacto devastador em empresas e em seus lucros. Esse risco só vai aumentar se continuarmos inertes. Mesmo com a ausência de liderança federal dos EUA nos últimos quatro anos, uma aliança de empresas com líderes estaduais e municipais formaram a coalizão "We are Still in", que fez muitos progressos na descarbonização mesmo enfrentando oposição do governo federal anterior. Agora precisamos de políticas claras que incentivem a alocação de capital em escala e ritmo necessários para superar o desafio climático. Moreno: Sergio Rial, vocês começaram a agir nessa área. Conte-nos qual seu ponto de vista sobre estes pontos e do banco Santander. Sergio Rial: Vemos o reconhecimento claro do setor privado de que o assunto envolve todo brasileiro. Além das políticas públicas necessárias, o setor privado no Brasil e, especialmente os três maiores bancos, deram passos decisivos para agir a respeito. Não dá para preservar a floresta sem pessoas engajadas e com meios para trabalhar. Culturas locais como pimenta, castanhas, açaí e cacau não receberam o financiamento necessário para que as comunidades tivessem sucesso. O setor privado, incluindo os bancos, falhou em fazer um trabalho melhor e descobrir como se tornar uma ferramenta de conservação sem perder a prosperidade da população de vista. Outro ponto que ainda deve ser muito trabalhado é a incorporação dos ensinamentos da população indígena amazônica para nos ajudar com a conservação. Moreno: Um dos maiores desafios do movimento climático é comunicar ciência de forma acessível e inclusiva. Conte-nos a perspectiva da mídia para gerar opinião pública e passar informação de forma a fomentar um movimento mais local, tão importante para este tema. José Roberto Marinho: O desafio é passar informação sobre um tema complexo como a emergência climática de forma simples, direta e inclusiva. Não há outra maneira de enfrentar esse desafio humanitário e não há um só caminho. Uma sociedade como o Brasil tem várias camadas de diversidade. A comunicação sobre questões climáticas deve ser inserida em todos os programas. Devemos levar a emergência climática para a realidade diária das pessoas. Um programa gastronômico pode falar de ingredientes orgânicos que fazem bem para a saúde, usam menos fertilizantes, poluem menos rios e reduzem a emissão de gases-estufa. Tudo se conecta. As pessoas se preocupam mais com o presente, com a poluição do ar e da água do que com a emissão de gases-estufa. Mas é a mesma realidade. Devemos estimular a mobilidade diversificada com caminhadas e ciclismo, para atuar na saúde pública e na proteção climática. Mostrar essas realidades e contar essas histórias gera conscientização e ajuda na criação de políticas públicas. Outro ponto é argumentar com o setor privado que tem o poder de mudar o rumo de investimentos, para reduzir a emissão e incentivar a sustentabilidade. A mídia tem o poder de gerar conscientização e ajudar a transformar, mas ainda é necessário melhorar a educação climática nas escolas para preparar as gerações que vão lidar com a crise climática no cotidiano. Na fundação queremos firmar parcerias para levar essa educação às escolas públicas em curto prazo. Há também o tom da comunicação. Vivemos em um mundo polarizado e confrontar a crise climática não pode ser algo ideológico. A comunicação deve ser sempre baseada na ciência e em fatos para alcançar as visões políticas diversas da audiência. Moreno: O sr. disse ter se emocionado com o compromisso de alguns países incluindo EUA, China, Europa, Brasil e outros, de buscar emissões líquidas zero até 2050 ou 2060. Mas como podemos ver o progresso local? Este é o desafio. É fácil definir uma meta para o futuro, é bom que seja feita, mas os governos duram de quatro a oito anos e a responsabilidade será de outro governo. Como garantir que as metas sejam atingidas e que os mercados financeiros desempenhem seu importante papel? Gore: Planos para alcançar emissões líquidas zero até 2050 ou 2060 no caso da China - embora eu não fique surpreso se eles fizerem isso antes - são realistas, desde que os países comecem a agir agora. Antes, líderes chineses argumentavam que a redução significativa de emissões prejudicaria a capacidade de melhorar a economia, acabar com a pobreza e expandir a classe média. Mas a economia atual conta uma história diferente. Um relatório que saiu no mês passado, da coalizão que ajudei a fundar chamada Climate Trace, mostra que a China poderia poupar US$ 1,6 trilhão nos próximos 20 anos ao fazer uma transição rápida para a energia renovável e deixar o carvão de lado. Acredito que a China e muitos outros países conseguirão superar suas metas e fazer uma transição para a energia renovável mais rápida do que previsto. O Vietnã cancelou a implantação de usinas a carvão e Bangladesh também. Vietnã se tornou o terceiro maior instalador de painéis solares no ano passado. Essas mudanças também ocorrem nos EUA. O novo compromisso do presidente Biden é apoiado por análises mostrando como os EUA podem cortar suas emissões pela metade nesta década enquanto fazem a economia crescer. O papel do setor financeiro continua fundamental por vários motivos, mas principalmente por tirar o capital do setor de combustíveis fósseis e focá-lo na sustentabilidade. Os investimentos em combustíveis fósseis já são os de pior rendimento da economia nesta última década. Observamos as maiores empresas de petróleo e gás terem o valor de seus ativos diminuídos. Ocorreu com empresas de carvão que faliram no mundo e nos EUA. O setor financeiro tem papel interessante a desempenhar. Bancos, corretoras e outras entidades financeiras podem esclarecer o risco de se investir em empresas ou produtos não sustentáveis ao usar critérios claros e transparentes de avaliação para os investimentos. Órgãos reguladores financeiros têm responsabilidade também. A Securities and Exchange Commission [SEC] nos EUA acaba de anunciar certas medidas para acabar com o "greenwashing". Na União Europeia órgãos reguladores estão criando iniciativas para incentivar empresas a revelar as informações relacionadas ao clima. Moreno: Como líderes do setor privado podem ajudar a implementar a transição? Rial: O sistema financeiro faz parte da solução e tem que se envolver mais nessa transformação. Com o uso e abundância de tecnologia podemos ter o rastreamento completo de carne e gado no Brasil nos próximos anos. O rastreamento de gado nos dá a oportunidade única para gerenciar melhor o desmatamento. Outro efeito é o uso de tecnologia de satélites para monitorar melhor os riscos. O sistema financeiro está finalmente reconhecendo que a tecnologia é facilitadora para melhorarmos não apenas para analisar riscos, mas também para atentarmos ao nível correto do risco. O terceiro ponto é o custo das energias renováveis que caiu tremendamente. Países como o Brasil e muitos outros ainda têm problemas básicos a ser resolvidos. No caso do Brasil, falo do tratamento de água e esgoto. Finalmente, o país aprovou uma nova lei para que o setor privado possa atuar no tratamento do esgoto, o que está diretamente relacionado aos níveis de poluição dos rios. Moreno: O que se pode fazer internamente nos bancos em termos de mudança comportamental? Rial: Devemos ter cuidado para não nos escondermos atrás das empresas. Como indivíduos precisamos levar essa questão para nossa vida cotidiana. Isso começa com o que consumimos, as escolhas que fazemos, com o que fazemos com a água. São Paulo teve há alguns anos uma forte seca que talvez esclareceu à população quão relevante o uso da água é. Penso que devemos levar essa equação para a nossa vida. Se você tem um carro a diesel, o que isso quer dizer, no longo prazo? O Brasil tem um dilema interessante: usaremos carros elétricos ou a etanol de cana? Levar a questão para a população é uma decisão de liderança. Devemos garantir que exista a discussão e a criação desse diálogo. Moreno: A crise da covid foi um choque para a humanidade. Mas a crise climática está em voga há muito tempo. O vice-presidente Gore já nos mostrou todo o perigo, a parte científica, e a humanidade não reage na velocidade que desejaríamos. Como melhorar a comunicação para que a sociedade leve este desafio de maneira muito mais séria? Marinho: É algo fundamental porque está claro que infelizmente o mundo deve se preparar para outras pandemias, de acordo com os cientistas. O Brasil tem uma participação bem modesta na ciência mundial, publicando 2% dos trabalhos. O número aumenta a 10% quando falamos de agricultura tropical e biodiversidade, além de termos climatologistas reconhecidos. Digo isso porque o Brasil tem, na Amazônia, um centro de referência em estudos de doenças tropicais, o Instituto Evandro Chagas. Lá pesquisadores estudam os efeitos do desmatamento na propagação de doenças. Não só: identificam e isolam novos vírus desconhecidos, que esperam o hospedeiro para se propagarem. Mas o investimento e a pesquisa privada aumentaram aqui. É o caso de iniciativas como a dos institutos D´Or e Serrapilheira. Existem movimentos relevantes, no cenário de recursos públicos escassos. A mídia tem que confiar na ciência e nos fatos para informar da melhor maneira. Também temos o desafio de superar o preconceito, falta de conscientização e politização desses assuntos. Ficou claro que na luta global contra a covid o negacionismo foi muito prejudicial. Devemos adotar a mesma iniciativa da adotada na pandemia ao tratarmos da crise climática. Educação é essencial. Devemos treinar os jovens que herdarão esse enorme desafio.


Extraído do Clipping da SCA

Fonte: Valor Econômico

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