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O biodiesel não é a causa do preço alto do diesel


O CNPE confirmou aquilo que todos no setor já sabiam que ia acontecer e, alguns bravos, ainda lutavam para evitar: o B10 volta a ser a mistura oficial em novembro e dezembro de 2021. Se essa confirmação por si só não fosse ruim o bastante, o conselho também achou por bem reforçar que o novo modelo de comercialização de biodiesel começa a funcionar dia 1º de janeiro de 2022.


Dessa forma, os leilões de biodiesel vão acabar na primeira semana de outubro, quando as distribuidoras deverão completar as compras do biodiesel para fazer a mistura de 10% no Leilão 82. Se tudo transcorrer bem, na prática, o último leilão de biodiesel estará finalizado antes mesmo que as usinas saibam o que, de fato, as aguarda dali em diante. Isso porque a audiência pública convocada pela ANP para definir as regras do mercado está marcada para o 08 de outubro, data na qual – segundo a programação publicada pela ANP – o certame deverá ter sido encerrado.


Com essas ações, o governo fechou as portas para os dois principais pedidos do setor para 2021. E agora o setor vai ter que se reestruturar em torno de um modelo de negociação desconhecido e de uma demanda 23% menor que o esperado.


O governo tomou essas decisões com o objetivo declarado reduzir o preço do diesel. Não se sabe se vai conseguir.


Quando o CNPE confirmou a redução da mistura, o dólar estava cotado em R$ 5,17. Mas isso foi dia antes das manifestações de 07 de setembro e dos discursos golpistas do presidente Bolsonaro. Hoje (08), a moeda norte-americana já subiu mais de 3% passando dos R$ 5,32. Se o governo estivesse preocupados realmente com o País e não com a reeleição, poderia conter com muito mais facilidade o preço dos combustíveis. Bastaria dando um rumo à nação e, dessa forma, reduzir a volatilidade do dólar.


O aumento de 3% no preço do dólar impacta 100% do diesel vendido nos postos e não só a fração de 10% de biodiesel. As ações do presidente no dia 07 de setembro não só anularam todo a potencial redução do preço do diesel na bomba como o tornaram mais caro.


Assumindo que esses 3% de alta serão repassados igualmente tanto ao preço do diesel e quanto do biodiesel – já que ambos têm suas matérias-primas referenciadas no dólar – façamos as contas. Considerando que, no L81, o preço médio do biodiesel na usina ficou em R$ 5.683,22/m³ e o preço do diesel está em R$ 2.900,00/m³ nas refinarias. Com 13% de biodiesel e 87% de diesel A, o diesel B custaria R$ 3.261,82/m³. Com a redução para 10% de biodiesel o preço do diesel B ficaria R$ 3.178,32/m³.


Mas isso foi no dia 06. Se a alta do dólar for simplesmente repassada. O biodiesel passaria a custar R$ 5.853,72/m³ e o diesel R$ 2.987/m³. O diesel com mistura de 10% de biodiesel passa então a custar R$3.273,67/m³, o que equivale a R$ 11,85 por m³ mais caro que custaria o B13 apenas dois dias antes. De quebra ainda teríamos menos emissões de gás carbônico e um ar mais limpo em nossas grandes cidades.


Todo um setor que investe no país e que poderia servir de vitrine para mostrar como o governo, apesar dos vexaminosos números recentes do desmatamento, ainda se preocupa com o meio ambiente e vários outros valores nobres foi assolapado com uma decisão míope para o longo prazo e que não deverá sequer cumprir seu objetivo de curto prazo. A única utilidade prática da reunião do CNPE acontecida nessa última segunda-feira foi mostrar que o governo pode até estar aberto a ouvir o que o setor tem a dizer, mas está pouco disposto a, de fato, escutar.



Miguel Angelo Vedana

Fonte:BiodieselBR.com

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