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Hidrogênio verde já compete com o cinza, diz CEO da White Martins

Para a White Martins, líder brasileira no setor de gases industriais, o hidrogênio verde – produzido por meio da eletrólise com energia renovável – já é competitivo em comparação ao cinza – produzido por meio da reforma do gás natural.

Em entrevista à agência epbr, o CEO da companhia, Gilney Bastos, afirma que a produção tradicional através de SMR – os reformadores – ficou cara por conta do alto preço do gás natural hoje comercializado no mercado.

“Temos a situação do gás natural com pouca competitividade no país e no mundo, em função da situação geopolítica. O gás natural está muito caro”, comenta.

Outro fator é o ambiental. Na avaliação do CEO, o gás natural deveria ser usado para descarbonizar atividades industriais, e não para produção de hidrogênio cinza, intensivo em emissões de carbono.

“Não vejo futuro no hidrogênio cinza (…) O que você vai fazer? Você vai jogar o carbono todo na atmosfera. É um uso ruim do gás natural”.


Renováveis competitivas

Na semana passada, a companhia deu mais um passo em sua estratégia de produção e comercialização de hidrogênio verde no Brasil, e anunciou a construção de uma segunda planta, desta vez em Jacareí (SP), para fornecer hidrogênio verde à Cebrace, uma indústria de vidro.

A primeira, de menor porte, está em operação há cerca de um ano em Pernambuco, e atende a uma indústria alimentícia.

“A competitividade do produto é a mesma, do hidrogênio cinza e do verde”, contou o executivo. “O preço [do hidrogênio verde] eu não posso divulgar, mas com certeza ele é competitivo”.

Bastos explica que a companhia conseguiu “negociações muito boas” em contratos de autoprodução do mercado livre de energia brasileiro, que garantiram energia renovável a um custo competitivo, viabilizando a produção de hidrogênio verde.

A White Martins possui participação societária no Complexo Solar Futura I, da Eneva, localizado no município de Juazeiro, na Bahia, e outro acordo com a Omega Energia, para participação conjunta no Parque Eólico Chuí, no Rio Grande do Sul.

“Estamos com 230 megawatts médios de energia 100% renovável. Ela é uma mistura de solar com eólica. Um mix de 130 com 100. Ela nos dá uma confiabilidade altíssima, 100% renovável”.

O CEO afirma que esse blend de eólica e solar permite o funcionamento permanente do eletrolisador, o que ficou comprovado na operação da planta de Pernambuco.

A nova planta de Jacareí deve entrar em operação em 2025, e espera produzir em um primeiro momento 800 toneladas de hidrogênio por ano.

Cerca de 20% desse volume será destinado à Cebrace, por meio de uma gasoduto 100% dedicado a hidrogênio verde que está em construção, e outros 80% estarão disponíveis para outras indústrias interessadas na região Sudeste.

“Vamos fornecer para eles dentro de um contrato novo que a gente renovou. Eles já são clientes nossos de hidrogênio há muito tempo. Mas a gente fez uma renovação agora por mais cinco anos. Eles vão receber por gasoduto, eles recebiam por tube bundle. Agora é gasoduto 100% verde. E a gente vai ter um excedente de 70% ou 80% da produção da planta para poder comercializar no mercado”.

A planta pode ser expandida de acordo com a demanda. Entre os principais segmentos industriais interessados no hidrogênio verde, Bastos destaca a siderurgia, papel e celulose, alimentos, química e petroquímica.

“Temos visto uma demanda, uma conversa muito grande (…) Vemos muitos segmentos com clientes querendo investir na descarbonização. Entregar ao mercado um produto mais verde. Também vemos interesse do país na economia de baixo carbono”.


Marco legal para o hidrogênio

O anúncio da nova planta chega em meio às discussões no Congresso Nacional para aprovação de um marco legal para o hidrogênio, e a inclusão de subsídios que façam frente a incentivos dados em outras regiões do mundo como nos Estados Unidos e Europa, que competem com o Brasil na atração de investimentos privados.

Segundo Bastos, os projetos da White Martins se mantêm mesmo sem incentivos, desde que a demanda pelo hidrogênio verde esteja garantida. Ele cita como exemplo o leilão da Alemanha, o H2Global, que subsidia parte da diferença de custo do hidrogênio verde importado.

“Eles dão muito subsídio, mas eles também não dão tudo. Eu acho que isso vai se dar no momento que alguém precisar. Realmente não tem mais como ficar queimando carvão e diesel. E aí, essas coisas vão se materializar e o projeto [de hidrogênio verde] para de pé”, explica.

Na avaliação do executivo, o mais importante é que o marco traga regras claras e definições capazes de dar segurança jurídica aos investidores.

“É importante que haja uma regulamentação no setor, para a gente saber o que é a certificação. Qual é a certificação? Quais são os requisitos oficiais? A gente tem que ter uma norma. A gente tem que ter uma política correta”, defende.

“Não vou falar de incentivo. Mas esse país tem visibilidade que isso pode ser muito favorável a médio, longo prazo. Ele pode dar um pontapezinho”.


Hidrogênio para exportação e CCS

Além do mercado interno, a White Martins explora oportunidades de exportação, em projetos de larga escala.

“Tem realmente muitos memorandos de entendimento. Tem outros novos, sendo assinados, mas o mais importante é que nenhum deles está parado”.

A companhia também olha para a produção de derivados, como metanol e amônia, e afirma que os consórcios no Pecém (Ceará) e no Porto do Açú (Rio de Janeiro) estão avançando.

Com a visão de que parcerias entre empresas de energia e complexos portuários são o passaporte para exportação do produto, a White Martins também estuda projetos no Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, conta o CEO.

Outra tecnologia em estudo é a captura e armazenamento de carbono (CCS).

Um dos projetos é em parceria com a Schlumberger, nos Estados Unidos. Bastos revela que também há conversas com a Petrobras para discutir oportunidades de negócios neste sentido.

“O papel da White Martins é executar, colocar tecnologia de captura de carbono a serviço de qualquer cliente que nos procure e fazer a captura e a destinação dele nas cavernas, dependendo da geologia.”

O CCS é uma maneira de viabilizar a produção do hidrogênio azul – aquele produzido a partir da reforma do gás natural, porém com a captura e armazenamento do carbono.

Entretanto, o executivo acha que o Brasil vai partir diretamente para o hidrogênio verde.

“No Brasil, vamos partir mais para o hidrogênio verde diretamente do que para o hidrogênio azul por causa da facilidade que a gente tem de energia renovável”.

Segundo ele, o hidrogênio azul é uma aposta de quem não tem acesso a energia renovável competitiva, mas precisa reduzir as emissões de carbono.

“Quem tem dificuldade de energia renovável vai ter que pagar um preço muito alto por ela, então, começa a não ser viável você fazer um projeto de hidrogênio verde. Aí começam a investir em questões paliativas que é o azul”.


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