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Falta de diesel no 2º semestre preocupa importadores, caminhoneiros e revenda


Guerra na Ucrânia, consumo impulsionado por questões sazonais e a retomada da economia com fim do isolamento social são fatores que pesam no planejamento.


A crise de abastecimento de diesel é global e o Brasil não vai passar imune à escassez do produto, principalmente se a Petrobras não alinhar seus preços com o mercado internacional, avalia o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo.


Apesar de ainda não faltar nos postos de abastecimento, a possível escassez do produto no segundo semestre começa a preocupar também os caminhoneiros, que já reclamavam do preço e agora terão mais um fator de estresse na categoria.


"Exigimos transparência com relação ao estoque de diesel para o mercado interno", afirmou em nota nesta semana o presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão. "Até o momento não está faltando, mas estou preocupado", disse ele ao Broadcast nesta quinta-feira, 26.


De acordo com o ex-presidente da Fecombustíveis, recém-saído do cargo, Paulo Miranda, nos postos com bandeira (com a marca das distribuidoras) não existe ameaça de desabastecimento no momento, mas os postos de bandeira branca (sem marca) já estão com uma racionalização seletiva.


Padaria sem pão


"Não tenho relato de falta sistêmica, mas já tivemos problema de posto do interior do Ceará ficar até três dias sem combustível, é igual uma padaria ficar três dias sem pão para vender", comparou.


Ele explica que as grandes bandeiras - Ipiranga, Shell (Raízen) e Vibra - ficam com 70% do diesel vendido pela Petrobras e importam o restante, diluindo assim a diferença de preços entre os mercados interno e externo. Já os postos sem bandeira compram pouco da Petrobras e dependem de importadores regionais, ficando em desvantagem no mercado.


Mesmo caro, o diesel pode faltar nos postos de abastecimento no segundo semestre do ano, com o consumo impulsionado por questões sazonais (férias no hemisfério norte e safra) e a retomada da economia com o fim do isolamento social por conta da covid-19, mas que estão sendo agravadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia, que deslocou o fluxo de venda de diesel para a Europa a fim de compensar os cortes de fornecimento de petróleo e gás russo. Com estoques baixos, os Estados Unidos também estão com demanda acima do normal, o que reduz ainda mais a oferta para outros países.


Importadores


"No Brasil o que preocupa é a defasagem de preço (em relação ao mercado internacional) e a falta de previsibilidade. Os grandes importadores (Petrobras, Ipiranga, Raízen e Vibra) têm feito importações elevadas, mas os outros 300 importadores do mercado não estão conseguindo", informou o presidente da Abicom.


Na Raízen, o presidente Ricardo Mussa admitiu na quarta, 25, que realmente há risco de desabastecimento de diesel, mas que, por enquanto, a situação ainda está "dentro do controlável". A empresa continua a importar o produto e a pagar mais caro para honrar os contratos com seus clientes.


"O problema ainda não passou, a tempestade continua e estamos no meio dela. Mas temos conseguido navegar bem. Conseguimos passar por momentos difíceis até agora", disse Mussa durante o Raízen Day, realizado na quarta-feira em São Paulo.


ANP


De acordo com o presidente da Abicom, tanto o Ministério de Minas e Energia quanto a Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) estão acompanhando de perto a situação e monitorando os estoques. "Todos nós temos que informar o nível de estoques e a expectativa de importação pra a ANP e MME, eles estão monitorando", afirmou.


Questionada, a ANP se limitou a dizer que "monitora o abastecimento nacional de combustíveis líquidos de forma sistemática por meio do acompanhamento dos fluxos logísticos em todo o território brasileiro. Na presente data, o abastecimento com diesel aos consumidores se mantém regular."


Araújo informa que, no momento, apenas algumas faltas de diesel pontuais foram relatadas à Abicom, mas que seus dez associados já informaram que não estão dispostos a importar diesel no momento e nem gasolina, esta última sem reajuste há 76 dias.


"A dificuldade mesmo será no segundo semestre em função da incerteza. Não podemos fazer contratos sem previsibilidade de preço. Pode até mesmo não ter o produto e se tiver, vai estar muito caro. É difícil tomar uma decisão agora, ainda mais com a declarada intervenção do governo na Petrobras", explicou, referindo-se à indicação de um membro do Ministério da Economia para a presidência da empresa, em um claro movimento do governo de tentar interferir nos preços da estatal.


Na segunda, 23, o Ministério de Minas e Energia enviou ofício para a Petrobras demitindo José Mauro Coelho e indicando para seu lugar Caio Paes de Andrade, secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia e próximo ao ministro Paulo Guedes.


Preços


Araújo afirma que, apesar do discurso de acompanhar a paridade do mercado internacional, a Petrobras não tem feito os reajustes necessários para garantir o abastecimento do País.


"No caso do óleo diesel, ela (Petrobras) está até alinhada no momento, mas, na gasolina, existe uma grande defasagem", informou. Segundo dados da Abicom, a defasagem da gasolina está em 6% e do diesel, em 2%.


Para o executivo, o presidente demissionário da Petrobras, que ainda tem mais dias pela frente do que teve de mandato (40 dias), deveria aproveitar para alinhar os preços e evitar um possível processo por parte dos acionistas minoritários.


"Ele deveria aumentar para se proteger de um eventual problema com acionistas minoritários porque a prática de preços no mercado interno abaixo do mercado internacional traz prejuízo para a companhia", ressaltou


Da mesma opinião compartilha Miranda, que vê como única solução para evitar o desabastecimento de diesel ou gasolina uma mudança de comportamento do presidente Jair Bolsonaro.


"A solução é o Bolsonaro parar de brigar com a Petrobras e deixar a companhia praticar a paridade internacional de preços e assim tranquilizar o mercado. José Mauro (Coelho) é um profissional excelente e não tinha que ser demitido, isso torna tudo mais complicado", concluiu Miranda.


Fonte: www.udop.com.br

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