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Estímulo para eletrificação da frota nos EUA pode pesar sobre demanda de biocombustíveis

No entanto, ainda há entraves para avanço dos carros elétricos nos Estados Unidos


Nos últimos anos, os veículos elétricos corresponderam por menos de 3% das vendas de automóveis novos nos Estados Unidos. Na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou que pretende que metade dos novos veículos vendidos no país até 2030 sejam elétricos, medida que está inserida nos planos governamentais de reduzir pela metade as emissões de carbono até o final desta década (em relação aos níveis de 2005) e atingir zero emissões líquidas de gases do efeito estufa (GEE) na economia até 2050.


Para alcançar as metas de redução de GEE estabelecidas, a agenda ambiental de Biden está integrada ao Build Back Better, plano que engloba setores de infraestrutura, indústria automotiva, transporte público, energia, habitação, inovação, agricultura e justiça ambiental.


“Embora os biocombustíveis se mostrem fundamentais para a eliminação de GEE no setor de transportes, o plano dá maior enfoque à eletrificação da frota americana. Especificamente, o país almeja se tornar líder global na oferta destes automóveis, bem como de suas peças e componentes”, comentam as analistas de mercado da StoneX Marina Malzoni e Rafaela Souza.


Em meio às metas agressivas para a eletrificação da frota de veículos norte-americana, a inteligência de mercado da StoneX também revisou suas projeções para o mercado. Até então, a expectativa do grupo era de que a circulação de veículos elétricos nos EUA apresentasse crescimento de 157% entre 2019 e 2030, ficando pouco abaixo de 4 milhões de veículos no horizonte de projeção. Tal avanço era considerado otimista, sendo baseado também nas perspectivas positivas para o crescimento da economia norte-americana.


“De modo a cumprir com as metas propostas, nossos cálculos apontam que a expansão dos veículos elétricos precisaria ser próxima de 253% no período analisado, totalizando cerca de 5 milhões de veículos em circulação no país na próxima década – metade do volume registrado em nível global no ano de 2020”, analisaram Marina Malzoni e Rafaela Souza.


Elas ainda apontam que esta conjuntura pressionará o consumo de combustíveis nos EUA. Considerando as perspectivas para o crescimento da frota de veículos no país, a aceleração da eletrificação poderá contribuir para um recuo adicional de 0,4% no consumo de gasolina em 2030 quando comparado com as expectativas iniciais da StoneX. Esta tendência deve se mostrar cada vez mais intensa a partir do momento em que a frota de veículos for sendo renovada nos EUA.


Em paralelo, o consumo de etanol tende a ser penalizado na mesma proporção, ao considerar um crescimento modesto da taxa de mistura do etanol na gasolina, com alcance de um patamar médio próximo de 13% nos próximos 10 anos, dados os entraves regulatórios e de infraestrutura para a expansão do uso de E15 nos EUA.


Ainda segundo as analistas, o impacto exato da eletrificação sobre o consumo de combustíveis irá depender de quando a meta imposta para 2030 será de fato alcançada. Também deve entrar na conta o comportamento da curva de participação de elétricos na frota de novos veículos ao longo dos próximos anos.


A inteligência de mercado da StoneX menciona que o alcance deste cenário ainda esbarra em alguns fatores limitantes – o que pode mitigar avanços significativos no curto prazo. Para além dos investimentos em infraestrutura, uma das principais preocupações se refere à disponibilidade de matéria-prima, capacidade (em termos de autonomia), durabilidade e custos associados às baterias dos veículos elétricos.


De acordo com as analistas, as previsões de longo prazo apontam para a redução dos gastos vinculados à produção de baterias, podendo alcançar níveis abaixo da paridade de custos dos carros movidos à combustão interna. Para elas, esta evolução tecnológica se coloca como o principal entrave à inserção de veículos elétricos na frota global, sendo um mercado ainda dependente de incentivos governamentais.


Além disso, Malzoni e Souza afirmam que questionamentos de cunho ambiental também ganham força, tendo em vista que a contribuição da eletrificação para a mitigação do aquecimento global dependerá de fatores específicos de cada região. Isso ocorre, sobretudo, nos dados ligados à matriz energética, dado que 78% da energia elétrica produzida nos EUA em 2019 foi gerada com base em fontes não renováveis. Por fim, outro ponto de questionamento está relacionado aos possíveis desdobramentos da eletrificação sobre o mercado de trabalho norte-americano, considerando a maior demanda por mão de obra dos veículos à combustão.


A perspectiva expressa pelas analistas trata sobre as incertezas em torno do avanço do consumo de etanol nos Estados Unidos nos próximos anos, somando-se a outros revezes da indústria ao longo de 2021. “O avanço do mercado de veículos elétricos acende um ponto de atenção para o setor de etanol, atualmente marcado por outras incertezas pelo lado da demanda, como aquelas ligadas aos volumes obrigatórios de mistura do Renewable Fuel Standard (RFS) – programa nacional de estímulo ao uso de renováveis nos EUA”, comentam as analistas do grupo.


De fato, a menção ao uso de biocombustíveis no Build Back Better foi considerada modesta, sendo citados indiretamente na seção do plano que trata de créditos fiscais para energia limpa. O acordo bipartidário firmado no último mês e aprovado pelo Senado americano na última terça-feira, 10, entretanto, não destinou recursos de maneira específica para incremento do setor.


Ainda assim, caso a eletrificação tenha sucesso e pressione significativamente o consumo doméstico de combustíveis no longo prazo, o etanol norte-americano poderia encontrar espaço nas exportações, com destaque para o estreitamento da relação comercial com o Brasil.


Segundo as analistas, isso ocorre porque as perspectivas para o mercado açucareiro se mostram otimistas em meio à manutenção da União Europeia como importadora líquida de açúcar nos próximos anos e à expansão do setor etanoleiro na Índia. Consequentemente, as usinas brasileiras poderiam priorizar a produção de açúcar em detrimento do etanol, abrindo espaço para maiores importações do biocombustível, de modo a suprir a demanda doméstica.


“É importante ponderar, contudo, que o avanço do RenovaBio pode favorecer a atratividade do etanol produzido a partir da cana pelas usinas brasileiras – especialmente considerando o seu maior potencial de redução de carbono frente ao etanol de milho”, aponta a StoneX. Por fim, o etanol americano poderia encontrar espaço, também, em outros mercados, tais como China, Canadá e economias emergentes da Ásia e América Latina, que devem aumentar sua demanda por biocombustíveis nos próximos anos em meio à tentativa de reduzir a poluição ambiental.



Fonte: StoneX

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