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Com políticas para “energia verde”, Brasil pode ter protagonismo na transição energética

A construção de um arcabouço de políticas públicas pode garantir ao Brasil protagonismo na transição energética global ao atrair investimento para o país, avaliam o presidente da Datagro, Plínio Nastari, e o chefe do Commercial Bank do Citi, André Cury.

Eles concederam entrevista sobre um dos assuntos centrais da 17ª Conferência Citi ISO Datagro NY Açúcar e Etanol, que ocorreu na quarta-feira, 8, em Nova York. “O Brasil está na vanguarda no formato de contabilização das emissões, assim como na implementação de regras e passos para alcançar a transição energética”, afirmou Nastari.

O arcabouço regulatório citado envolve o programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), que estabelece o método “poço à roda” (da produção do combustível ao seu uso nos veículos) para contabilizar as emissões de gases de efeito estufa dos automóveis, assim como projetos de lei, como o Combustível do Futuro e o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), ambos já aprovados pela Câmara dos Deputados.

As medidas, vistas como marcos para ampliar o uso da “energia verde” no país, constam dos projetos de lei que ainda serão avaliados pelo Senado e, após aprovação, precisam ser regulamentadas. A expectativa é de que a conclusão dessas etapas abra caminho para investimentos mais vultosos no país, destacam as fontes.

“Sem essa base regulatória, os demais aspectos não virão”, disse Cury. “O interesse do capital pela redução das emissões e pelo Brasil, como um player fundamental, é gigantesco. O desafio é o país estabelecer as condições mínimas para que o retorno do investimento seja favorável. Não vai se aportar dinheiro ou recursos em um projeto que não esteja bem implementado, ou onde as leis e regulamentações não estejam consolidadas”, acrescentou.

Além disso, o potencial da matriz energética pode ser outro fator a colocar o Brasil à frente na transição. Nastari cita que, hoje, quase metade da energia produzida no país vem de fontes renováveis, bem acima da média global.

“A matriz energética do mundo é 13% de renováveis, sendo de 11,6% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de 48,6% no Brasil. Por isso, o Brasil já sai na frente quando se pensa onde se pode construir uma fábrica para ajudar no processo de descarbonização de uma empresa”, disse.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os investimentos da indústria automobilística em projetos relacionados à transição energética entre 2021 e 2030 somam R$ 120 bilhões – e mais pode vir de outra indústria, a da aviação. Isso aconteceria especialmente em função do combustível sustentável para aviação (SAF), visto como fundamental para que as companhias aéreas consigam reduzir as emissões de carbono.

A produção mundial de etanol hoje é de 89 milhões de toneladas, enquanto o potencial de SAF é de 360 milhões de toneladas, de acordo com estimativa do presidente da Datagro. Nesse momento, várias empresas brasileiras, como Raízen, São Martinho, BP Bunge, Adecoagro, FS e Coruripe, possuem certificação para produzir SAF, mas ainda não há projetos para plantas industriais o fabricarem dentro do país.

O projeto do Combustível do Futuro também conta com o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, o ProBioQAV, que tem o objetivo de incentivar a pesquisa, a produção, a comercialização e o uso do SAF na aviação.

O texto estabelece que, a partir de 2027, os operadores aéreos serão obrigados a reduzir as emissões de gases do efeito estufa nos voos domésticos por meio do uso do SAF. As metas começam com 1% de redução e crescem gradativamente até atingir 10% em 2037.

“Se o governo realmente exigir, por meio de medidas normativas, a mistura de biocombustíveis, isso cria um comprador garantido. Nesse caso, as próprias companhias aéreas se tornariam o comprador natural, gerando demanda para o projeto e contribuindo para fechar a equação. Atualmente, essa exigência não existe, apenas uma autorregulação na aviação civil, o que dificulta a atração de investimentos”, disse o executivo do Citi.

Cury enfatizou a necessidade de o Brasil agir com celeridade para aproveitar essa oportunidade. “O Brasil precisa se mover rapidamente para oferecer condições atrativas aos investidores e se destacar como uma oportunidade sólida. A competição global é intensa, e o timing é essencial. Se o país agir de maneira rápida e consistente, poderá atrair recursos para a transição energética. No entanto, se houver demora na ação, corre o risco de perder esses recursos para outras alternativas”, comentou.


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