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Alta dos combustíveis veio para ficar


Para alguns que acompanham os mercados de fontes de energia, os altos preços do gás natural, carvão e petróleo serão "transitórios", para usar a linguagem do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Eles estão errados. Os altos preços chegaram para ficar por muitos anos. As sementes foram plantadas na era dourada do petróleo, entre 2010 e 2014, quando a cotação média do barril passou dos US$ 100. O forte crescimento na produção em bacias de xisto nos EUA nesse período e as previsões de uma iminente chegada a um teto histórico para a demanda por petróleo resultaram na profunda falta de investimentos em petróleo convencional a partir de 2015. De fato, o número de descobertas de campos petrolíferos entre 2016 e 2020 foi o mais baixo já registrado e os novos projetos de exportação de gás natural liquefeito (GNL) sofreram desaceleração, após dez anos de baixos preços, decorrentes de uma onda de crescimento na produção. Reação da oferta a preços mais altos tem sido muda. Investimento médio em bens para exploração de petróleo em 2020 e 2021 é 25% inferior ao que seria necessário para simplesmente manter a produção de óleo estável em 100 mil barris diários Normalmente, preços mais altos equilibram o mercado, ao encorajar um aumento na oferta e restringir a demanda. Os estoques e a capacidade de produção ociosa agem como um amortecedor, absorvendo o choque mundial até os altos preços impulsionarem a produção para atender a crescente demanda. Agora, no entanto, a transição energética vem mudando as regras do jogo. Até agora, a reação no lado da oferta aos preços mais altos tem sido muda. O investimento médio mundial em bens de capital para a exploração de petróleo em 2020 e 2021 girou entre US$ 320 bilhões e US$ 350 bilhões. É metade da média no período de 2011 a 2014 e 25% inferior ao que seria necessário para simplesmente manter a produção de petróleo estável em 100 milhões de barris diários, um patamar que a demanda mundial já superou, agora que as restrições à mobilidade vêm sendo levantadas. As questões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) são responsáveis por boa parte do declínio nos investimentos feitos pelas petrolíferas internacionais em bens de capital nos últimos anos, assim como por boa parte do êxodo dos investidores para fora dos mercados de petróleo e gás. A alta nos preços de petróleo e gás não acabará com isso. Hoje, o investimento em combustíveis fósseis é mal visto e a disponibilidade de financiamento escasseia à medida que os grandes bancos ocidentais se afastam. A Agência Internacional de Energia (AIE) pede o fim de todo o financiamento ao petróleo, gás e carvão, se o mundo quiser alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Em razão da longa defasagem de tempo entre o investimento e a disponibilidade de oferta, ainda estamos por ver o impacto total dessa desaceleração dos investimentos na produção de petróleo e gás convencionais. Em outras palavras, a oferta continuará a ficar atrás da demanda por alguns anos. Isso vale ainda mais tendo em vista que o foco dos produtores de xisto nos EUA agora é preservar fluxo de caixa e dar retorno aos acionistas - uma grande mudança em relação à situação dos últimos dez anos. Por outro lado, a demanda não sofreu tanto impacto das ESG como a oferta. A demanda por petróleo - e por energia em geral - é extremamente arraigada. Os combustíveis fósseis representavam 84% da demanda mundial por fontes de energia em 2020, sem grandes alterações desde 1980. A única mudança real foi uma leve troca do carvão pelo gás. As fontes renováveis vêm fazendo incursões, mas principalmente nas economias desenvolvidas. Em termos mundiais, os hidrocarbonetos permanecem na pole position. A demanda por energia continuará em alta, enquanto a população crescer e os níveis de renda subirem. Durante o auge das medidas de confinamento pela pandemia em 2020, o consumo de petróleo caiu 20% na comparação anual, mas se calcula uma volta ao nível prépandemia no segundo semestre de 2022. Tal previsão é consenso entre a AIE e o secretariado da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Qualquer um que achasse, três anos atrás, que Elon Musk iria tornar o petróleo obsoleto deve estar um pouco confuso agora. A verdade é que, a demanda mundial vem reagindo às crescentes preocupações ambientais de forma muito mais lenta que a oferta. Isso significa preços muito mais altos para os combustíveis fósseis - os atuais preços do carvão estão em patamar recorde. Saltos tecnológicos à parte, preços elevados são o catalisador mais eficaz de mudanças no comportamento no lado da demanda. Afinal, sempre há um preço para assegurar que a demanda se iguale à oferta. Sem dúvida, isso pode causar aflições para os consumidores e provocar pânico entre os governos. China, Alemanha e EUA já vêm preparando medidas para aliviar o impacto das energias verdes. Os EUA até estudam recorrer à reserva estratégica de petróleo do país para diminuir os preços do petróleo na bomba de gasolina. No entanto, manter os preços do petróleo, do gás e da eletricidade artificialmente mais baixos impede os consumidores de ajustarem seus padrões de demanda e implica uma passagem mais lenta para a energia verde. Realocar o capital que era da produção de hidrocarbonetos é crucial para uma transição bem-sucedida. Mas as emissões globais não cairão se a demanda por combustíveis fósseis não diminuir, e os preços continuarão altos enquanto a demanda for alta. Portanto, se os governos levam a sério o combate às mudanças climáticas, o foco não pode estar apenas em leis que alterem a oferta. Eles devem lidar com a demanda. Preços altos da energia, ainda que impopulares entre eleitores, serão necessários se quisermos ter alguma chance de cumprir as ambiciosas metas energéticas definidas pelos governos. Há debates complexos em torno à transição energética, mas há duas certezas: a transição é inflacionária e alcançá-la exigirá duras escolhas. Combater as mudanças climáticas será caro.



Texto extraído do boletim SCA

Fonte: Valor Econômico

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